Domingo, Maio 10, 2009

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Acordei de repente no meio da noite na rua alguém chamara: A N A !
Então o nome correu pelos ares como um duríssimo triângulo como um
papagaio
de pedra o meu nome é de basalto é uma corrente
bate nos meus ouvidos oiço os seus elos A---N---A---!
São três dedos num só apontam para si mesmos ANA ANA ANA
às vezes parecem pancadas dum pequeno martelo batendo regularmente
bate em mármore talvez qualquer superfície dura e o eco
das pancadas corre em dois sentidos         Sentido A <---> A
(corre pelos sentidos).
Tudo o que é sentido por A é sentido por A
N é A em fuga incompleto A     incompleto dois A. É um índice de A
                    OH ANA!
A negação A partícula O reversível O igual a si O em si
Um nome é em si O que jamais é fora de si
Oiço o meu nome corre sobre mim passa por mim
O meu nome não é eu
O nome passa por mim correndo vem ter comigo grita-me aos ouvidos
O nome é atirado contra mim cai em mim
Com o meu nome caio em mim
                       A N A
Três pancadas: uma na cabeça outra no peito outra na cabeça
É uma formação     As letras voam formação V
          A           A                      N
                N                       A           A
Rapidamente uma pancada no estômago
Vejo o preso na cadeira Ouve o seu nome Vêm buscá-lo Abrem-se as grades
Vou morrer Não posso desprender-me Estou inocente
Empurram-me para a frente Tropeço pelos corredores no meio dos guardas
Abre-se a grande porta:
                      A N A !
Salto no ar
          salto no ar absoluto precedida do meu nome
                                           seguida do meu nome
O meu nome atira-me para a frente
                   empurra-me para a frente
                         corre pelo ar absoluto
                                  eu caio no fundo
Olho para o alto: o nome é um triângulo de basalto
Fecho os olhos
Penso na existência do nome.
Quero chorar. Doem-me os olhos. Choro lágrimas de tinta.
Quero olhar dizer o nome. A minha boca está cheia de tinta.
Estou dobrada. Quero erguer-me.
Estou dentro.
                            Tudo o que sou escreve o nome
                                     é para escrever o nome
                                                 o vómito do nome
                                                          a agonia do nome
                            A minha pele é o chumbo líquido do nome
Os meus membros são as teclas da máquina de escrever o nome

ANA ANA ANA ANA ANA ANA ANA ANA ANA ANA ANA ANA

O nome corre pelo corredor batendo nas paredes desdobrando o eco como
uma peça
de tecido anúncio eléctrico do nome vou de joelhos pelo nome cumpro antigas
promessas sangro tinta pelo nome subo pela máquina murmurando o nome

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ANA: se eu fosse disléxica e quisesse ler ANA jamais compreenderia
o que quer dizer ANA. Veria essas formas agudas - vértice, vértice, vértice
invertido
vértice. Mas não o que quer dizer ANA. Jamais compreenderia porque é
impossível
compreender o que quer dizer A - N - A. Por exemplo: o que se passa
na boca:
com uma certa força expelir o ar - A; um pouco de língua contra o céu
da boca
(empurrando levemente contra os dentes de cima) - N; outra vez expelir o ar
apoiando com uma certa força - A. Mas não é bem assim. O ar sai com a
descida
da língua. Há só um A - o primeiro - o último não é um A. É um
resto do
movimento do N com um pouco do ar do primeiro A, suspendido em N e
por fim expelido
em A, prolongamento de N.
ANA é isto.
Isso.
A língua quase não se move. É um nome muito tranquilo. Pacífico mesmo.
Para dizer ANA com força é preciso estar-se muito zangado. Normalmente
move-se
apenas a língua levemente dentro da boca. Não é preciso muito mais.
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Ana Hatherly, Poesia (1958/1978)

3 comentário(s):

Ana disse...

Obrigada, O'Sanji. Não conhecia e fiquei sem palavras.
O poema , além de belo, traduz verdades.



ANA

três letras
duas vogais
uma consoante

simples
simétrica
serena

e tão só.

Ana disse...

Fico verdadeiramente fascinada com o que se pode discorrer e verbalizar, à volta de três simples letrinhas.

O poema é admirável e penitencio-me de ser desconhecedora da generalidade da obra de Ana Hatherly!
Vou ter de corrigir a falha, rapidamente.

Esta foi uma bela forma de me arrastares até aqui e eu agradeço, sinceramente, o gesto.

Já conhecia o blog, por intermédio da Cris que o tem citado inúmeras vezes, com toda a justificação.
Que este é um espaço de inegável qualidade.

Obrigada, O'Sanji.

Beijinho

O'Sanji disse...

ANAs
Para mim foi um prazer poder partilhar convosco o nome e o poema! :)
Beijos