Terça-feira, Março 31, 2009

Vem ver-me antes que morra de amor – o sangue
arrefece dentro do meu corpo e as rosas desbotam
nas minhas mãos. Da minha cama ouço a tempestade
nos continentes; e já quis partir, deixar que o vento
levasse a minha mala por aí; fiz planos de correr mundo
para te esquecer – mas nunca abria a porta.

Vem ver-me enquanto não morro, mas vem de noite –
a luz sublinha a agonia de um rosto e quero que me recordes
como eu podia ter sido. Da minha cama vejo o sol
tatuar as costas do meu país; e já sonhei que o perseguia,
que desenhava o teu nome no veludo da areia e sentia
a vida a pulsar nessa palavra como o músculo tenso
escondido sob a pele – mas depois acordava e não ia.

Vem ver-me antes que morra, mas vem depressa –
os livros resvalam-me do colo e o bolor avança
sobre a roupa. Da minha cama sinto o perfume das folhas
tombadas nos caminhos. O Outono chegou. E o quarto
ficou tão frio de repente. E tu sem vires. Agora
quero deitar-me no tapete de musgo do jardim e ouvir
bater o coração da terra no meu peito. Os vermes
alimentam-se dos sonhos de quem morre. E tu não vens.

Maria do Rosário Pedreira, O canto do vento nos ciprestes

3 comentário(s):

LN disse...

Nice blog. Parabéns. ;)

susaninha disse...

Que lindo, este texto está maravilhoso, mais não sei o que dizer,sempre que leio um post de alguem leio com todo o sentimento que dedico ao momento, e por vezes as palavras teimam em não sair...

Lindo.

Que um anjo te ilumine
Beijos

O'Sanji disse...

LN
Obrigada! Volte sempre.
Abraço
_____

Susaninha
Obrigada pela visita e seu comentário.
Volte sempre.
Abraço