Talvez que o que eu lhe dissera sobre o homem tivesse ti-
do uma repercussão abrupta,         tal era a distância de ex-
periência que nos separava. Não havia em mim qualquer luci-
dez cínica e arrepiante, como se desejar ter um homem fosse
criminosamente uma ilusão.
    Não.
    De modo algum. Falara-lhe apenas, antecipando a necessá-
ria deslocação do toque. Vê-la tocar no tecido
fez-me lembrar,
ou pensar
que nela alguma memória habitaria mas tão diáfana e subtil
que, por comparação, lhe seria difícil iniciar um esboço de in-
ventário, dar nomes aos objectos, ou objectos aos nomes
falar da brevíssima ou levíssima diferença que sobressaísse,
mas onde cada coisa haveria de aparecer lentamente,
tacteando.
___________enquanto a mão percorria o espaldar, vi formar-se
lentamente uma diferença imanente,
uma presença ausente
que já antes lhe roçara o corpo,
e se esvaíra.
    Olhei-a no rosto,
o meu olhar encontrou-a a roçar-se pelo vestido
pensei que estivesse nua,
que apenas o vestido a vestisse, ou que o vestido apenas a ves-
tisse,
acreditei que falasse um nome,
que o falasse abruptamente,
sabendo que é infinita a violência da mulher,
como é infinita a sedução do vestido que a veste,
não sabendo, nós mulheres, pela primeira vez o digo,
qual é em nós a substância,
a mão que roça pelo espaldar,
ou o tecido branco que cobre de atributos a própria mesa.
    Se o toque não for decidido,
e o medo nos invadir,
não terei palavras para lho dizer.
    Como dizer-lhe que uma lâmpada se funde inesperada-
mente
que um prato cai sem darmos por isso, quando isso é a própria
queda,
que uma voz desaparece repentinamente de nos falar
que um afecto é, de facto, tudo (mas não de tudo quanto o
prende)
que teria gostado de escrever romances
se o tempo não existisse
que se o toque fosse indiferente apenas existiriam atributos
ou, se preferes, enquanto acaricias esse espaldar só haveria
vestidos,
e o corpo onde o deixarias
sem ter, sequer, a noção de afecto a quem o dar,
não olhes para mim com esse olhar.
    Sem uma memória decidida,
as coisas desconhecidas fluctuam.
    Sim, imagino.
    Disse-lhe, soletrando todas as letras,
o cheiro fasto que se desprende do espaldar é de um homem,
odor denso, de um homem incómodo, embaraçoso, opaco.
    «Quem gostarias de ver a teu lado?»
Maria Gabriela Llansol, in O jogo da liberdade da alma
Segunda-feira, Março 02, 2009
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3 comentário(s):
Belo texto este!
Já agora: a m+usica do seu blogue é do Preisner, não é?
Querida Amélia
Este livro da Gabriela Llansol é uma maravilha! E este é só um excerto!
A música é da compositora grega Eleni Karaindrou. De um disco que tem por título: "The Weeping Meadow", da etiqueta ECM. Se quiser posso enviar-lhe por mail os ficheiros desse disco.
Um beijo
Obrigada pela informação.Beijos
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