Mais um ano está cumprido.
De repente, implacavelmente, o tempo
arrancou as suas folhas,
a vertiginosa sucessão dos números.
Despenharam-se os relógios, as clepsidras, as
varas do sol.
Gritei, contorci-me, explodi no ar como
as canas de fogo.
Mas não havia cor.
As sombras, a sombra do mal, a sombra do
medo,
a sombra da nostalgia,
adensaram os contornos da minha vida.
Desejei morrer tantas vezes,
Viajei entre baldios, colhi plantas sem nome,
quebrei os corais do último sonho,
debrucei-me em varandas que davam apenas
para a cidade das trevas.
Bebi todos os vinhos,
tudo o que nascia dos cactos, do absinto, das
juníperas alucinadas,
da cevada dos países frios.
Devorei palavras sem sentido, orações,
rosários de pérolas negras,
liturgias que jamais responderam à extrema
solidão do homem.
Abracei um corpo de inocência perdida e
estremeci,
e esse corpo estremeceu na inquietude da
minha vida desesperada.
Talvez fosse amor esse agitar de asas,
esse brilho de lantejoulas enlouquecidas.
Não sei.
Havia uma praça onde os cães adormeciam,
sem endereço, sem dono,
sem os antigos passeios pelos prados da alegria.
Aí estavas tu, josé,
meu amigo de desumana voz,
a guardar o meu sono, a angústia das suas praias.
Mas não dizias nada.
Eras o único caminhante desses planetas para
onde eu partia,
sempre que Deus me chamava,
com a sua urgência inexplicável.
Penso sempre no seu trono de jóias raras,
sob as árvores frondosas,
e procuro a sua mão sobre a minha fronte,
sobre o meu pensamento de casas puras.
Já não tenho casa.
Fiz do desabrigo um imenso campo de anis e
flores altas.
A minha cama é essa planície onde os
animais se deitam, sem pensar em nada.
Por isso não quero a mentira dos povos, as
estátuas de bronze,
as armas brancas atrás das costas.
Quero um barco de papel, um espelho de
água, um lago.
Mais nada.
José Agostinho Baptista, Esta voz é quase o vento
Quarta-feira, Dezembro 31, 2008
Terça-feira, Dezembro 30, 2008
por ti encheria o quarto de rosas
se ontem tivesses vindo de rosa
pus a música de Puccini
a fruta toda brilhante
os lençóis de neve
a almofada aberta como gostas, em forma de ostra.
o espelho reteve a memória do
primeiro momento. ele próprio restauro da tua pele solar.
também ele litoral ardente
mordendo-te a nuca em pontadas de mel.
também ele cúpula da minha saudade húmida.
cópula madura de tanto esperar.
por ti tudo teria sido rosa
se ontem quando me invadiste o quarto
o teu sexo trouxesse rosas.
Isabel Mendes Ferreira, A pele
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Segunda-feira, Dezembro 29, 2008
vou buscar-te ao fim da tarde,
porque a noite só escurece contigo ao
meu lado, porque a noite aprende por ti
o caminho aberto das estrelas
vou buscar-te ao fim da tarde,
e verás como preparei a casa, como
escolhi a música, como, enfim, espalhei
os objectos mais impressionados contigo,
os que ganharam vida por se interporem
na espessura estreita que vai do meu
ao teu coração
e não mais te devolvo, correndo todos os
riscos de não amanhecer nunca
numa loucura propositada por ti
não mais te devolvo,
ocuparás o mundo debaixo e sobre mim,
e não haverá mais mundo sem que seja assim
valter hugo mãe, pornografia erudita
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Domingo, Dezembro 28, 2008
Tudo renegarei menos o afecto
e trago um ceptro e uma coroa,
o primeiro de ferro, a segunda de urze,
para ser rei efémero
desse amor único e breve
que se dilui em partidas
e se fragmenta em perguntas
iguais às das amantes
que a claridade atordoa e converte.
Deixa-me reinar sobre ti
o tempo apenas de um relâmpago
e incendiar a erva seca dos cumes.
E se tiver que montar guarda,
que seja em redor do teu sono,
num êxtase de lábios sobre a relva,
num delírio de beijos sobre o ventre,
num assombro de dedos sob a roupa.
Eu estava morto e não sabia, sabes,
que há um tempo dentro deste tempo
para renascermos com os corais
e sermos eternos na sofreguidão de um instante.
José Jorge Letria, Variantes do Oiro
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Quinta-feira, Dezembro 25, 2008
Neste Natal, Deus venha amado, desarmado, disposto a conter as iras do velho Javé e, surrupiado de fadigas, derrame diluvianamente sua misericórdia sobre todos nós, praticantes de pecados inconclusos. Venha patinando pela Via Láctea, um sorriso cósmico estampado no rosto, despido como o Menino na manjedoura, mãos livres de cajado e barba feita, a pedir colo a Maria e afago a José. Traga com ele os eflúvios das bodas de Caná e, a apetitar nossos olhos famintos, guisados de ovelhas e cordeiros acebolados, sêmola com açafrão e ovos batidos com mel e canela. Repita o milagre do vinho a embriagar-nos de mistério, porque núpcias com Deus presente, assim de se deixar até fotografar, obnubila a razão e comove o coração.
Venha neste Natal o Deus jardineiro do Éden, babelicamente plural, disposto a fazer de Ló uma estátua de açúcar. E com a harpa de Davi em mãos, salmodie em nossas janelas as saudades da Babilônia e faça correr leite e mel nos regatos de nosso afeto.
Neste Natal, não farei presépio para o Javé da vingança nem permitirei que o peso de minhas culpas sirva de pedra angular aos alicerces do inferno. Quero Deus porta-estandarte, Pelé divino driblando as artimanhas do demo, acrobata do grande circo místico.
Minha árvore não será enfeitada com castigos e condenações eternas. Nela brilharão as chamas ardentes da noite escura a ensolarar os recônditos do coração. Venha Deus a cavalo, a pé ou andando sobre os mares, mas venha prevenido, arisco e trôpego e, sobretudo, desconfiado, à imagem e semelhança de minha indigência.
Enquanto todos comemoram em ceias pantagruélicas, vomitando farturas, iremos os dois para um canto de esquina e, amigos, dividiremos o pão de confidências inenarráveis. Deus será todo ouvido e eu, de meus pecados, todo olvido, pois não há graça em falar de desgraça num raro momento de graça.
Neste Natal, acolherei Deus no meu quintal, lá onde cultivo hortaliças e legumes, e darei a ele mudas de ora-pro-nóbis, coisa boa de se comer no ensopado de frango. Mostrar-lhe-ei minha coleção de vitupérios e, se quiser, cederei a minha rede para que possa descansar das desditas do mundo.
Se Maria vier junto, vou presenteá-la com rendas e bordados trazidos do sertão nordestino, porque isso de aparecer senhora de muitas devoções exige muda freqüente de trajes e mantos, e muita beleza no trato.
Que venha Deus, mas venha amado, pois ando muito carente de dengos divinos. Não pedirei a ele os cedros do Líbano nem o maná do deserto. Quero apenas o pão ázimo, um copo de vinho e uma tijela de azeite de oliva para abrilhantar os cabelos. Cantarei a ele os cantos de Sião e também um samba-canção. Tocarei pandeiro e bandolim, porque sei das artes divinas: quem pontilha de dourado reluzente o chão escuro do céu, e provoca o cintilar de tantas luzes, faz mais que uma obra, promove um espetáculo. Resta-nos ter olhos para apreciar.
Desejo um Feliz Natal às bordadeiras de sonhos, aos homens que prenham a terra com sementes de vida, às crianças de todas as idades desditosas de maldades, e a todos que decifram nos sons da madrugada o augúrio de promissoras auroras.
Também aos inválidos de espírito apegados ciosamente a seus objetos de culto, aos ensandecidos por seus mudos solilóquios, aos enconchavados no solipsismo férreo que os impede de reconhecer a vida como dádiva insossegável.
Feliz Natal aos caçadores de borboletas azuis, artífices de rupestres enigmas, febris conquistadores a cavalgar, solenes, nos campos férteis de sedutoras esperanças.
Feliz Natal às mulheres dotadas da arte de esculpir a própria beleza e, cheias de encanto, sabem-se guardar no silêncio e caminhar com os pés revestidos de delicadeza. E aos homens tatuados pela voracidade inconsútil, a subjetividade densa a derramar-lhes pela boca, o gesto aplicado e gentil, o olhar altivo iluminado de modéstia.
Feliz Natal aos romeiros da desgraça, peregrinos da indevoção cívica, curvados montanha acima pelo peso incomensurável de seus egos pedregosos. E aos êmulos descrentes de toda fé, fantasmas ao desabrigo do medo, néscios militantes de causas perdidas, enclausurados no labirinto de suas próprias artimanhas.
Feliz Natal a quem voa sem asas, molda em argila insensatez e faz dela jarro repleto de sabedoria, e aos que jamais vomitam impropérios porque sabem que as palavras brotam da mesma fonte que abastece o coração de ternura.
Feliz Natal aos que sobrevoam abismos e plantam gerânios nos canteiros da alma, vozes altissonantes em desertos da solidão, arautos angélicos cavalgando motos no trânsito alucinado de nossas indomesticáveis cobiças.
Feliz Natal aos que se expõem aos relâmpagos da voracidade intelectual e aos confeiteiros de montanhas, aos empertigados senhores da incondescendência e aos que tecem em letras suas distantes nostalgias.
Feliz Natal a todos que, ao longo deste ano, dedicaram minutos de suas preciosas existências a ler as palavras que, com amor e ardor, teço em artigos e livros. O Menino Deus transborde em seus corações.
Frei Betto
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Segunda-feira, Dezembro 22, 2008
Para sempre em azul
1. Já disse que estou cansada, farta desse argumento estúpido. Que
me interessa a tua idade, os teus filhos, os teus oito netos e uma
mulher que desde sempre te arrumou as camisas no lugar certo
e te acompanhou na morte das tias, no casamento da Rita, no
baptizado do João, te comprou a gravata a dar com o blazer.
Estou-me nas tintas para esse caixote de fotografias, a aliança
dobrada, o carro a meias, os juros acumulados na conta da
reforma, o primeiro namoro, o único namoro, as noites de natal
e os presentes sugeridos. Quero lá saber das amarras de trinta
anos de um casamento igual ao de trinta milhões de outros, ou
por acaso a tua magnífica ingenuidade te faz acreditar que és o
único homem a quem acontece o fascínio da última viagem?
2. Já pensaste que amanhã nem sequer resistiremos ao pó, que
outros irão em romarias de alguma disponibilidade devidamente
apontada, depositar um magro ramo de flores numa qualquer
cidade de mortos, e que nem na memória dos filhos ultrapassa-
mos a linha da dor que o tempo amortece?
3. Já pensaste que ninguém recupera o brilho, o fulgor da pele,
o fio do prazer, a sede do gesto, a alegria do coração a pular,
a adolescência do amor?
4. Eu sei, já me disseste vezes sem conta que és o filho pródigo
do teu medo, o operário forçado da tua solidão partilhada, o elo
inquebrável de uma imensa cadeia dourada e alcatifada pelos
compromissos sociais, o patriarca frágil de um sistema de refor-
mas velhas de mil anos, o homem com um passado ligado à
relva do seu pequeno jardim.
5. Mas também sei que me amas, que te revês na minha fuga ao
tempo, que cresces no meu sonho onde o lugar do amor é só
planícies e montanhas onde nenhuma casa nos espera, nenhum
móvel para mudar, todos os silêncios podem ser sedução ou
ponto final.
6. E depois quem te pode garantir que na manhã seguinte ainda
estarei ao teu lado para te dar o cigarro e dizer que são horas
da assembleia-geral, rir do teu pijama às riscas, irritar-me com
a tua obsessão pela pasta de dentes meticulosamente espremida,
dizer-te não te esqueças de telefonar à Zeca, e assistir ao teu nó
de gravata bem comportado? E depois como terás a certeza da
minha felicidade, eu tão jovem, tão acessível ao desejo, tão livre
para escolher o restaurante, o perfume, o quadro, o sexo?
7. Confessa António que te assusta a impotência, o desejo encolhido
ao canto das virilhas, escondido entre duas pregas rugosas, amor-
talhado entre músculos flácidos, sem aquele arrojo juve-
nil de que tanto te orgulhaste aos vinte, trinta anos de pujança
sexual.
8. Confessa que tens medo do espelho, que fazes a barba a correr
para não te defrontares com as rugas, o cansaço, os lábios secos,
as maçãs do rosto descaídas, os dentes postiços, o cabeço comple-
tamente branco, o tempo a rir-se de ti e com ele o olhar cínico
e acusador da mulher que abandonaste por uma miragem.
9. Eu sei que já viste este filme e na altura até o achaste credível
e elogiaste o realizador, o argumento, a representação, e na tua
voz clara e pausada fizeste uma sinopse ao teu mais íntimo ami-
go, e ficaram os dois bebendo descafeínados, trocando opiniões
muito analíticas, muito ilustradas por comentários tipo, pois é, a
gente perde sempre o último combóio ou por medo ou subserviên-
cia ao que não é importante mas é funcional.
10. E foram cada um para as suas moradias voltadas para o mar
da serenidade conformada, para a conta a prazo da velhice a
dois, cinco, ao cão, à bicicleta no canto da garagem.
11. Eu sei que dois mais dois são quatro, que o mundo já era antes
de mim, que a vida tem de ser gerida pelos polícias da norma-
lidade, que tudo tem um preço, que o tempo tudo apaga, que
há regras que valem e fazem o ouro, mas não quero saber. Aliás,
ninguém quer saber de ninguém. É tudo mentira, António, tudo,
nada resiste à claridade. Todos os contornos se desfazem contra
a faca do irremediável e nenhum gume corta mais fundo que a
vontade de ser, o terrível desejo de viver neste tempo enquanto
os olhos vêem, o coração bate, a pele exige.
12. O resto, é o que virá depois de mim, depois de nós, depois das
sombras se coserem às escarpas da memória, e essa é tão breve
que nem com sílabas de aço se passa à eternidade.
13. Por isso insisto na autonomia de realizar o meu filme sem fil-
tros especiais nem montagens em estúdios sofisticados. Construí
o meu palco sobre o rio e todos os dias desaguo no vertiginoso
estuário da coragem, doa a quem der, o último barco a passar
há-de ser o meu, nem que tenha todos os dias, todos os instantes
de dobrar o cabo da angústia, porque sabes António, ao leme
deste querer, mais do que eu manda o desejo de gritar, de acon-
tecer.
14. Quero lá saber do porta-chaves ou da máquina de lavar que já
não lava, ou do imposto profissional, ou das férias em Itália,
o teu fato precisa de ir para a lavandaria? e isso é importante?
Amanhã é outra lua, deixa-me ler este artigo sobre moda, vai
chover? eu vou comprar um disco de Jazz.
Sim, é tão bom passear na praia, perder o pé na areia, encontrá-lo
cheio de cascas de búzios, mergulhar nua, correr contra o vento,
chegar a casa e encontrar-te. És tão bonito assim, azul, azul até
ao infinito. Amo-te.
15. E é verdade, António, todos os filmes são possíveis. Isso, vamos
sair, vamos ao cinema ver Bergman, melhor, vamos fazer amor...
estava só a ver se te irritava, sabes como eu gosto de te acicatar,
afinal, estamos tão velhos e gastos meu amor.
16. Como foi bom envelhecer contigo... Aconchegar a noite na con-
cha das tuas costas, beijar nos teus dedos a renda da ternura.
Amo-te tanto, António. Fica comigo neste quadro.
Isabel Mendes Ferreira, Ponto Final
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Domingo, Dezembro 21, 2008
Como se nada pudesse alterar o percurso de uma paixão,
enfeito os ombros de mimosas e mudo de perfume, para
inquietar quem roce os meus cabelos.
Chegaste: trazias nos olhos toda a claridade
das manhãs da tua infância
e um sorriso de menino triste no contorno da boca.
Chegaste: o meu olhar propício ao teu olhar.
A marca da sede nos meus lábios.
Um frio perturbado, coagulando-me o sangue e o sexo.
Chegaste: lembras-te como, em nossas mãos,
se insinuou um rio e, sem tréguas, os dedos
deslizaram, lentamente, adivinhando o começo
da nascente em nossos corpos?
Graça Pires, Reino da Lua
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Sábado, Dezembro 20, 2008
Apoia a tua cabeça adormecida, amor,
Tão humana sobre o meu braço descrente;
O tempo e a febre consomem
A própria beleza das
Pensativas crianças, e o túmulo
Mostra que a criança é efémera:
Mas, nos meus braços, até ao romper do dia
Deixa que a viva criatura jaza
Mortal, culpada, mas que para mim
É toda a beleza.
A alma e o corpo não têm limites:
Para os amantes quando jazem
Sobre o seu permissivo e encantado declive
Num habitual desfalecimento,
Grave é a visão que Vénus envia
De uma sobrenatural compaixão;
Amor universal e esperança;
Entretanto, uma visão abstracta desperta
Entre os glaciares e as rochas
O êxtase carnal do eremita.
A segurança e a fidelidade
Passam ao bater da meia-noite
Como as vibrações de um sino
E aqueles que são elegantes e loucos erguem
O seu pedante e enfadonho apelo:
A mais pequena moeda devida,
Tudo o que as temidas cartas auguram,
Há-de ser pago, mas desta noite
Nem um murmúrio, nem um pensamento,
Nem um beijo nem um olhar se hão-de perder.
A beleza, a meia-noite, a visão que morre;
Que os ventos da madrugada ao soprarem
Suaves em redor da tua cabeça sonhadora
Mostrem um dia de boas-vindas
Que o olhar e o coração palpitante abençoem,
Que achem suficiente o nosso mundo mortal;
Que meios-dias de aridez te encontrem alimentada
Por poderes involuntários,
Que noites de afronta te deixem passar
Vigiada por todos os amores humanos.
W. H. Auden, trad. de Maria de Lourdes Guimarães
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Sexta-feira, Dezembro 19, 2008
Em ti
Me espera
A prima-
vera.
Porém
Não vejo
A quem
Desejo,
Nem donde
Responde
Quem chamo.
Aonde
Se esconde
Quem amo?
Carlos Queiroz, Colóquio Letras, nº 2
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Quinta-feira, Dezembro 18, 2008
fossem meus olhos
as mãos
cálidas mãos neste limiar
de fogo
trepadeiras amarinhando
no teu corpo
fosse o instante oculto
entre colinas de vento
e amanhecer
longamente te daria
a faca dos silêncios
a raiz dos pássaros
meu amor
José Manuel Mendes, Colóquio Letras, nº 45
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Terça-feira, Dezembro 16, 2008
tu vens e vais
voltas. desfazes o nó desmanchas o véu
acertas no dó que é fá no meu ombro
que
é si na minha anca e voltas às voltas
que desfias por dentro do meu sonho
que é feito de pedra cal feno e muita água
toda a água que bebo da tua boca
tu vais e voltas
quase sempre como sombra
pele de nenhuma pele assombro de lábios cerrados
contra o cais.
se um dia voltares sem marcas de amarras
velas brancas na proa das minhas costas
é só porque te fiz marinheiro do meu corpo
adamastor do meu lado
margem do meu rio
árvore
prado
sátiro limo lobo fogo
se um dia voltasses,
o que não é suposto que aconteça,
serias rede
e eu o laço.
Isabel Mendes Ferreira, Canto chão
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Domingo, Dezembro 14, 2008
Pensar em ti é coisa delicada.
É um diluir de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.
Um pesar grãos de nada em mínima balança,
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.
Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir.
Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses de vidro ou película de loiça
que apenas com o pensar te pudesses partir.
António Gedeão, Poesia Completa
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Quinta-feira, Dezembro 11, 2008
Leva-me contigo
Não interessa para onde
Nem o como
Ou o porquê.
Leva-me contigo
Afasta-me de mim
Para que não me parta
Aos pedaços
Encandescente
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Quarta-feira, Dezembro 10, 2008
Todos os comboios te trazem até mim,
pequena luz do meu desassossego,
num sussurro de promessa inconfessada,
num desafio de pergunta sufocante.
Vais e voltas, audaz e indefesa,
na migração branda de todos os afectos
e é instinto que me dá do teu nome
o timbre e o tom das revelações que embriagam.
Nunca a distância pôs tão perto
a mão que treme e a tentação do lume.
Vais e voltas e sem que o saibas
é por mim que vens e é por ti que parto,
que o sentimento que sustenta estes dias
é volátil e breve como um pássaro de névoa,
como uma serpente de jade, como um fumo
de ópio num encontro contra o tempo,
contra a pressa com que o tempo se disfarça e aniquila.
Vais e voltas e é de mim que te apartas
nesse fogo de quereres estar não estando,
nessa inquietude de seres gare e cais
quando tudo em ti pede que sejas apenas casa e corpo.
E como eu te imito, te repito e sigo
nesse assombro de acordarmos em nós
o sobressalto da lava que faz do enlace
uma extrema e indefinível comoção.
José Jorge Letria, Variantes do Oiro
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Terça-feira, Dezembro 09, 2008
Quando se regressa de um sonho
o amor atemoriza
como uma nuvem escura
que trespassa a exígua espessura da vida.
Disse-lhe e ela silenciou.
Preciso que me impeças
de me perder perdendo-te.
"Não temas o amor autêntico
que tenho para te dar
se souberes dar-te".
Sei que será assim.
E fechando as cortinas da memória
dei-me
sabendo que novos sonhos floriram
e aí está o nosso tempo.
José Manuel Carreira Marques, cristal da pele, poemas por dentro das mãos
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Segunda-feira, Dezembro 08, 2008
falo de um espelho secreto entre os meus dedos
um espelho que reflecte múltiplas imagens
um espelho que
de cada vez que alguém chama por um nome inteiro
sucede nele um tremor de terra
e o espelho quebra
ficam então os estilhaços dele
entre os meus dedos
que entraram abruptamente no meu cérebro
vejo agora e de mais perto
um rapaz com asas e sem lágrimas:
um fantasma branco de nuvens e cabelos...
Maria Azenha
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Sábado, Dezembro 06, 2008
Trazes antes de ti o propósito
de eu ser uma flor de malva
porque o antegosto do rosto
é que é em ti a palavra
o mar que encostas ao ouvido
cioso de eu ser feita de grutas
e o meu rosto só tem sentido
se é a água que tu escutas.
Depois é que vêm as mãos
compor-me a anca a nuca um dedo
e vens sempre cheio de medo
que eu não seja a estrela de alva.
Mais tarde chegam os olhos
medrosos como eu gosto mais
de se atrasarem pelos campos
a colher-me jacintos especiais.
Natália Correia, Poesia completa
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Sexta-feira, Dezembro 05, 2008
Oração de Clara ao seu jardim:
«Meu espírito clama pelos poderes cicatrizantes
Do amor. Neles penso, enquanto escurece ou
Chove torrencialmente na ravina obscura que
Atravesso. Vi levantar-se a ilusão da alegria
Perene como dádiva. Que dardo cravas em mim,
Que assim entenebreço, que nervuras tão densas
Me crias, se em ti me perco?»
Maria Gabriela Llansol, O Começo de um Livro é Precioso
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Quinta-feira, Dezembro 04, 2008
Adivinha
Quem se dá quem se recusa
Quem procura quem alcança
Quem defende quem acusa
Quem se gasta quem descansa
Quem faz nós quem os desata
Quem morre quem ressuscita
Quem dá a vida quem mata
Quem duvida e acredita
Quem afirma quem desdiz
Quem se arrepende quem não
Quem é feliz infeliz
Quem é quem é coração.
José Saramago, Os poemas possíveis
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Quarta-feira, Dezembro 03, 2008
sei que és um búzio ao anoitecer
e mando-te mil recados
pelas lâminas do vento
da tua boca brota uma fonte
é onde os pássaros não voam
e vêm beber-te
mas nem sempre as palavras chegam
para levar as estrelas aos teus olhos
nem eu sei dizer o teu nome
Maria Azenha, A chuva nos espelhos
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Terça-feira, Dezembro 02, 2008
Sulcas-me o corpo
com relevos mil. Cercas-me
o olhar de alarmes
e brandura. Lavras-me
a alma com brilhos
e resplendor. De ti
nada sei, ó infrene duração
das coisas! Nada sei,
a não ser a clara razão
com que talhas o mínimo
acidente. Sulcas-me.
Sorves o que a teus pés insisto
e ponho. E se tudo
tudo me levares, deixa-me
ao menos a ousadia do sonho.
Victor Oliveira Mateus
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Segunda-feira, Dezembro 01, 2008
No por amor, no por tristeza,
no por lo nueva soledad:
porque he olvidado ya tus ojos
hoy tengo ganas de llorar.
Se va la vida deshaciendo
y renaciendo sin cesar:
la ola del mar que nos salpica
no sabemos si viene o va.
La mañana teje su manto
que la noche destejerá.
Al corazón nunca le importa
quién se fue sino quién vendrá.
Tú eres mi vida y yo sabía
que eras mi vida de verdad,
pero te fuiste y estoy vivo
y todo empieza una vez más.
Cuando llegaste estaba escrito
entre tus ojos el final.
Hoy he olvidado ya tus ojos
y tengo ganas de llorar.
Antonio Gala, Poemas de Amor
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